sábado, 7 de dezembro de 2013

A Prevenção

Jogue no Loto da Baviera e habilite-se ao fabuloso jackpot desta semana!!” diz uma voz entusiasmante na rádio, levando-nos a imaginar, como seria fantástico ser o vencedor. E logo de seguida, surge uma voz monocórdica, falando em andamento acelerado, a prevenir: “A probabilidade de vencer o primeiro prémio é de um para cento e quarenta milhões. Os jogos de sorte podem criar dependência. Mais informações e ajuda em www.lotto.de”.

A entidade gestora da lotaria não quer vir a ser responsabilizada pelos prejuízos que o jogo venha  a causar a algum apostador viciado. Mais vale prevenir, e por isso, o anúncio da lotaria é sempre seguido daquele aviso, como se nos estivessem a dizer “ depois não digas que não te avisei!” Este tipo de avisos, delimitam a responsabilidade das entidades.  Nas piscinas, junto às pranchas de saltos, avisa-se que a utilização das pranchas é da responsabilidade do próprio. Em bengaleiros encontram-se dísticos que alertam “Não nos responsabilizamos por valores deixados no vestuário”. Na rádio, ao fim de semana, depois de anunciarem os números premiados no Loto, acrescentam que “esta informação foi dada sem garantia.”  E em vários parques de estacionamento, informa-se que a entidade gestora do parque não se responsabiliza por eventuais danos nas viaturas.
As câmaras municipais são responsáveis pelo bom estado de utilização de estradas e caminhos. No entanto, a edilidade exclui a sua responsabilidade em certos caminhos pedestres secundários, avisando o cidadão com um dístico :

Foto: Caminho não tratado.Utilização
por conta e risco do próprio.


Todos este avisos têm como objectivo definir a fronteira de responsabilidade de determinada entidade, de forma a prevenir eventuais conflitos no caso de ocorrer algum acidente.

Encontra-se por vezes um outro tipo de avisos, no qual se recomenda determinado comportamento ou atitude. Estas mensagens fazem normalmente apelo ao civismo dos cidadãos e ao respeito pelo próximo. É o caso desta placa que se encontra junto aos semáforos de peões, onde se lê : “Só com verde. Dê o exemplo às crianças.”


Foto:  Dê o exemplo !

Em alguns balcões de atendimento, como seja nos Correios, nas bilheteiras dos caminhos de ferro ou nas urgências do hospital, é usual encontrar um letreiro com o seguinte apelo: “ Mantenha a distância. Seja discreto.” E nos lavabos de qualquer avião da Lufthansa, encontra-se a seguinte mensagem: “Como gesto de cortesia para com os outros passageiros, sugerimos que utilize o toalhete para limpar o lavatório.” Aqui deixo mais um exemplo destes avisos comportamentais, que encontrei no buffet de pequeno almoço de um hotel, e em se fazia o seguinte apelo :

Foto:  Bom apetite !
“Desejamos-lhe caro hóspede um bom apetite e um pequeno almoço abundante e tranquilo, mas rogamos-lhe que nada leve consigo.” 


Mas o tipo mais comum de aviso, é aquele que alerta para a presença de determinados riscos. 


Foto: Cuidado com a avalanche
É o caso deste placa, que indica que podem cair pequenas avalanchas a partir do telhado. Quando as temperaturas andam próximo do zero, alertam com frequência na rádio para o perigo de formação de películas de gelo nas estradas e passeios, que são difíceis de ver e extremamente escorregadias; uma verdadeira armadilha para quem está pouco habituado ao convívio com a neve.












O espírito preventivo faz-se notar não só através de avisos, mas também através de várias medidas e infraestruturas de segurança, que podemos observar à nossa volta. Sendo a cidade atravessada por um rio, encontram-se em espaços regulares ao longo das margens, bóias de salvamento, para se poder acudir a alguém que caia à água.



Foto:   bóias ao longo do rio
O portuga, claro, fica admirado e pergunta-se : "Então e ninguém rouba as bóias ?"

E para prevenir das consequências de uma inundação no centro da cidade, foi construído um largo canal de inundação, com cerca de 7 km de extensão, que contorna a cidade, e permite o escoamento das águas, quando o rio engrossa demasiado. Nas inundações de Junho de 2013, esta grande obra comprovou uma vez mais a sua eficácia:


Foto: O canal de inundação com 15 dias de intervalo.





Junto aos prédios de habitação é reservado um corredor para o acesso dos bombeiros em casos de emergência.



Foto:   Feuerwehrzufahrt - acesso para bombeiros
Perante esta medida de segurança, essencial para a eficácia dos bombeiros, o lisboeta é levado a pensar, que  o incêndio ocorrido na Baixa em 1988 não teria certamente atingido aquelas proporções, se os reponsáveis da Câmara de Lisboa tivessem reservado o devido espaço para o acesso dos bombeiros...





Qualquer obra a realizar no espaço público é devidamente assinalada com barreiras,  fitas coloridas e luzes. Na perspectiva de um portuga, chega por vezes a ser exagerada a profusão de apetrechos de sinalização utilizados.

Foto: Sinalização que dá nas vistas.

 A preservação do meio ambiente e da natureza é uma preocupação sempre presente na sociedade alemã. As superfícies de vidro são decoradas com silhuetas de aves de rapina de forma a afugentar os pássaros e assim evitar que choquem com estas superfícies, que para eles são invisíveis:
Foto:   Silhuetas com a função de "espantalho".


Repare-se que o terceiro degrau do lado direito desta escada se encontra em mau estado, e por isso, o acesso desse lado foi interditado, até que os defeitos sejam corrigidos.


Foto: Cuidado com o degrau.


Esta pequena barreira aplicada na aresta de uma esquina, obriga os peões a afastarem-se da esquina, evitando assim eventuais choques.
Foto: Uma boa ideia para evitar choques.



Como medida de segurança, em zonas residenciais a velocidade máxima é de 30km/h, e fica aqui desde já o aviso:  a polícia faz esporadicamente controlo de velocidade com radar nestas zonas. 
Foto: Velocidade máxima.
Quem exceder este limite terá de pagar uma multa, e aos "aceleras" apanhados acima de 65km/h será apreendida a carta. Por isso, é recomendavel não exceder o limite de velocidade imposto. É que, mais vale prevenir...

domingo, 10 de novembro de 2013

O Almoço

O trabalhador alemão, encara a pausa para almoço de forma bem diferente do portuga. São muitas as pessoas que não almoçam sentadas a uma mesa de restaurante ou de cantina. Muitos fazem apenas uma curta pausa para comer alguma insignificância e retomam em seguida o seu trabalho, sem sequer chegarem a sair da empresa. 
É comum ver colegas tirarem da sua mochila um pequeno farnel, e irem até à copa do departamento ou até mesmo ficarem sentados no seu posto de trabalho, e aí fazerem a sua furgal refeição. Em geral não se trata de alimentos que necessitem de ser aquecidos. O mais provável será trazerem uma sandes de pão escuro, recheada com queijo ou com alguma peça de charcutaria, e que poderá ser combinada com uma salada e com fruta.  Nos costumes lusos, está enraizado, que as duas principais refeições diárias sejam com alimentos cozinhados e quase sempre quentes. Ainda que haja hábitos muito diferenciados na população alemã, é comum entre os alemães fazer-se apenas uma refeição diária com alimentos quentes. A outra refeição, seja ela o jantar ou o almoço, tem frequentemente como base o pão escuro, que poderá ser acompanhado, por exemplo por uma salada, por queijos ou por peças de charcutaria. Tendo a Baviera sido uma região predominantemente agrícola, talvez esta prática provenha dos tempos em que as pessoas íam trabalhar para o campo e levavam consigo o farnel, em geral à base de pão.   

Mas, durante a hora de almoço, nem todos ficam na empresa. Os colegas que vão almoçar ao exterior, procuram preferencialmente locais onde se possa comer rapidamente e por um bom preço.  

Uma das possibilidades é a de recorrer a uma das várias padarias que existem nas imediações, que oferecem uma boa variedade de sandes com diferentes tipos de pão. O recheio poderá ser com queijo fatiado ou queijo mozzarela, com fiambre, presunto, salpicão ou um panado de carne, e a sandes incluirá sempre umas folhinhas de alface umas rodelas de tomate e pelo menos uma rodela de pepino. Para beber poderá optar-se entre diferentes tipos de cafés, ou de chás ou refrigerantes.

Foto: Variedade de sandes numa padaria.
Foto: Uma ou duas sandes destas fazem um almoço.

Uma outra opção, será a de ir almoçar a um talho. É que alguns destes estabelecimentos preparam pratos  simples e vendem-nos numa embalagem apropriada para o cliente poder levar consigo a refeição.

Foto: Sopa com semola em embalagem para levar  

Há quem leve a refeição para a copa da empresa, e faça aí o seu almoço. Estes talhos dispõem normalmente de algumas mesas elevadas, que oferecem a possibilidade aos clientes de comer ali mesmo em pé.


Fotos: refeição rápida num talho. / Fatia de porco assado com massa.

Gosto de ir almoçar a um destes talhos, que é um pouco mais completo que os demais, e que até dispõe de uns bancos altos, que sempre dão um pouco mais de comodidade. Mas, como se pode ver, há quem prefira sentar a mala e o casaco no banco, e comer em pé:



Uma terceira opção, para quem queira fazer um almoço rápido e barato, será a de ir almoçar a um pequeno self-service de um supermercado ou de um centro comercial. A ementa nestes locais é em geral fixa, oferecendo alguns pratos tradicionais simples, tais como salsichas, bife panado, perna e lombo de porco assado, frango assado e por vezes também pato assado. Como acompanhamento o freguês poderá escolher entre Knödel, Kartoffelsalat,  batatas fritas e o característico Sauerkraut * . A refeição é servida num tabuleiro e, nestes locais, existem mesas e cadeiras para os clientes.

 
Foto: lombo de porco assado com Knödel* e Sauerkraut*

Na generalidade, durante a semana de trabalho, o alemão evita entregar-se aos prazeres da mesa à hora de almoço. Existe uma noção generalizada, que a pausa de almoço deve ser breve e a refeição em si deve ser comedida. Há dias almocei com um colega, que vai sempre comer a uma das tais padarias. Enquanto comiamos as nossas sandes, que, de resto, são bastante saborosas e completas, perguntei-lhe:  “Então e não almoças de vez em quando uma refeição quente de faca e garfo?” “Não,” diz-me ele, “isso seria demasiado demorado, além de ser mais caro. E assim, sempre me sobra tempo para poder tratar de algum assunto pessoal durante a pausa de almoço.”   Vou encontrando com alguma frequência pessoas que almoçam a correr diariamente, mantendo durante a pausa de almoço, praticamente o mesmo nível de stress, que têm durante as horas de trabalho. Claro que estas práticas também existem em Portugal, mas parecem-me ser menos significativas. 

Aos fins de semana, nem sempre se pode descontrair à hora de almoço.  O sábado é o dia eleito pela maioria dos alemães para ir às compras. É que, diferentemente do que acontece em Portugal, o comércio está encerrado ao domingo. E, andando nas compras, muitas pessoas não querem perder tempo a fazer uma refeição formal e comem qualquer coisa que lhes permita continuar em andamento. É vulgar vê-los na rua a segurarem uma sandes na mão, ou vê-los sentados em bancos de jardim a comer pequenos snacks.

Foto: refeição rápida num banco da cidade.

Os que têm mais tempo, enchem cafés e esplanadas para fazerem uma pequena refeição mais descontraída. Alguns sentam-se nestes locais à hora de almoço para comerem apenas algum doce de colher ou uma fatia de bolo, acompanhado por uma bebida. Outros limitam-se a encomendar uma cerveja, que vão beberricando demoradamente. 



Parece que só aos domingos, é que se pode disfrutar de alguma descontracção ao almoço. É frequente encontrar nos restaurantes famílias sentadas à volta da mesa a fazerem o seu almoço de convívio.

Mas, voltando ao ambiente de trabalho numa empresa, há uma situação que já presenciei várias vezes e que ilustra bem a contenção que se pretende ter na pausa para o almoço. Imaginemos que nos encontramos numa demorada reunião, eventualmente com colegas que vieram de alguma filial distante, ou que estamos a participar numa acção de formação, que irá estender-se durante todo o dia. Nestes casos, é usual a empresa encomendar umas sandes, que são trazidas para a sala um pouco antes de se fazer a pausa de almoço. São oferecidas algumas bebidas, e com pratos, copos e guardanapos, todos almoçam ali na sala. Eles entendem que é uma forma de não perder o ritmo e de não prejudicar a eficácia dos trabalhos. Sairem todos para ir almoçar fora, seria considerado uma perda de tempo, além de constituir uma despesa bem maior. Assim, com as sandes servidas na sala, a empresa dispõe-se a oferecer a refeição a todos.

Para além das possibilidades de almoço referidas anteriormente, quando dispomos de tempo suficiente, poderemos optar por ir almoçar a um restaurante para fazer uma refeição com mais substância, e comer tranquilamente, como o portuga aprecia. Há uma oferta variada de restaurantes alemães, italianos e gregos. Os pratos são um pouco mais caros, mas sai-se com o estômago reconfortado. Vai um naco na grelha, acompanhado de batata assada em folha de alumínio com molho agridoce e uma salada colorida?

 


*
- Knödel: poderão ser feitas com uma massa à base de batata ou de pão (como a açorda). A massa é bastante compacta e é moldada em forma de bola. É um acompanhamento tradicional para pratos de carne.  Normalmente combina bem com o molho da carne.
- Kartoffelsalat: pedaços de batata cozida envolvidos num molho de mayonese.  É servido frio.
- Sauerkraut: também conhecido entre nós como choucroute. Trata-se de couve branca, que é conservada por um processo de fermentação láctica. É temperada com cravinho ou cominhos e tem um sabor avinagrado característico.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Os Cães


O sol escondeu-se e os candeeiros já estão acesos. Por trás da janela observo a rua que se encontra quase deserta. Um homem avança ao longo do passeio conduzindo o seu cão pela trela. O cão puxa a trela com força, obrigando o seu dono a inclinar-se ligeiramente para trás de forma a refrear a energia do animal. Um cão daquele tamanho deve sentir-se algo oprimido de viver num apartamento e sempre ansioso de ir à rua. O canídeo vai farejando à esquerda e à direita, deixando a sua marca odorífera primeiro na parede do prédio, depois numa árvore e a seguir na roda de um carro, que, por acaso, é do meu vizinho de cima. Um pouco adiante o cão pára junto a um candeeiro público, flete ligeiramente as patas traseiras , colocando-se numa posição característica, que não deixa dúvidas sobre os vestígios que ali irão ficar sobre a calçada. Uma vez satisfeita a necessidade do animal, prossegue o passeio, mas é logo de seguida interrompido por um cão vadio que vem a correr pela rua abaixo. Ao verem-se, os dois cães desatam a ladrar sofregamente, fazendo um tal barulho, que alguns moradores do prédio em frente vêm à janela ver o que se passa. A custo, o dono lá consegue dominar o seu cão e juntos dobram a esquina, desaparecendo assim da minha vista.

Poderíamos ter assistido a uma cena como esta numa qualquer cidade portuguesa, onde não é raro sermos perturbados por cães que ladram insistentemente, ou termos a roda do carro manchada por algum cão cujo dono permitiu que o seu bichano ali se aliviasse, ou sermos perseguidos por um cão a ladrar que não nos deixa prosseguir o nosso jogging ou passeio de bicicleta, ou sermos ameaçados por um que parece querer saltar a vedação para nos atacar, ou ainda, pisarmos inadvertidamente o dejecto de um canídeo que se encontrava bem no meio do caminho. Haverá algum cidadão português, que não tenha ainda passado pela desagradável e fedorenta experiência de ter de limpar a sola do sapato, depois de ter pisado os restos de "uma digestão canina”?

É por tudo isto, que o portuga fica admirado, ao verificar que na Alemanha a relação entre cães e humanos é muito mais disciplinada e ordeira . Dir-se-ia que os cães alemães andaram todos na escola. E os seus donos também parecem ter recebido alguma formação, pois, por aquilo que vou observando, têm mais controlo sobre os seus animais, do que aquilo que estou habituado a ver em Portugal. Por aqui, não se vêem “prendas” de cão espalhadas pelo passeio, nem se ouvem cães a ladrar por tempos infindáveis, nem se vêem cães abandonados a vaguear pela cidade. Nas idas à rua os donos levam o seu animal sempre pela trela. Até mesmo, como neste caso, quando o dono vai de bicicleta:


 
em alternativa, o animal poderá ir na bagageira:

e, também há quem leve o seu “melhor amigo” na sacola, quando vai às compras,
 ou quando viaja de comboio:

E quando os cães se cruzam uns com os outros durante o seu passeio diário, conduzidos pelo respectivo dono, não os vejo envolverem-se em zaragatas barulhentas. E ainda que os portões de algumas vivendas por onde passo ostentem o dístico “Cuidado com o cão”, não fui ainda ameaçado por nenhum cão de guarda, daqueles que enfiam subitamente o focinho por entre as grades e desatam a ladrar de dentes arreganhados.


Este nível generalizado de disciplina, permite que os cães entrem, conduzidos com trela, na maioria dos estabelecimentos comerciais, tais como lojas de vestuário, restaurantes, livrarias, cafés, centros comerciais e tantos outros espaços, sem que se verifiquem distúrbios, ou que o espaço seja conspurcado.


Aqui ficam alguns exemplos:


no pronto-a-vestir:



 






na bijouteria:                                             na livraria:

 


no restaurante:                                       no café:







no centro comercial:



                                          
No entanto, em lojas de venda de alimentos, como supermercados e talhos, a sua entrada não é permitida. Haja tolerância para com os animais, mas nada de exageros. Imagine-se o que se passaria na cabeça de uma cão, ao ver-se rodeado de suculentos e aromáticos bifes e costeletas... Nestes casos, os donos deixam o seu cão preso a algum varão ou poste que se encontre por ali.

 

Alguns supermercados chegam mesmo a dispor de um varão próprio para “estacionamento” de cães.

Foto: Parqueamento para cães



Há ainda alguns cães, com elevado auto domínio, que nem necessitam de ser presos a lado nenhum:



É o caso deste cão de comportamento exemplar, que espera disciplinadamente pela sua dona diante da porta do talho, sem sequer tentar entrar na loja, quando algum outro cliente abre a porta. 

E depois de encontrar o exemplo que se segue, fiquei de facto convencido que os cães alemães frequentam mesmo a escola.  Caso contrário, como conseguiriam eles entender esta sinalética que lhes é destinada ?!?

 



domingo, 14 de julho de 2013

O Pão

O forasteiro, ao entrar numa padaria alemã depara-se com uma enorme variedade de diferentes tipos de pão. Está ele ainda indeciso a contemplar toda aquela variedade e  já a empregada lhe está a perguntar o que deseja. Ele ainda percorre rapidamente a vitrine à procura de algum pão semelhante ao da sua terra, mas como naquele instante todos os pães lhe parecem estranhos e para não estar a empatar mais a clientela, aponta o dedo ao primeiro tipo de pão, que o seu olhar não rejeitou. “Meia dúzia destes, por favor.” Nos próximos dias haverá tempo para experimentar os diversos tipos de pão e ir descobrindo os que mais lhe agradam. Esta poderia ser a experiência de um português na sua primeira visita a uma padaria alemã, à procura das carcaças, bolas ou papo-secos que todos conhecemos.

Por aqui também há carcaças à base de farinha de trigo, à disposição do freguês. Além da carcaça na sua versão simples, há uma variante coberta com douradas sementes de sésamo, e uma outra com as negras e  minusculas sementes de papoila. No grupo do pão branco é vulgar ver-se também a baguette, que surge também em variações, como por exemplo, contendo pedaços de azeitona. Mas é no pão escuro, essencialmente à base de centeio, que existe uma grande diversidade.
Pode conter misturas de outros cereais, como aveia ou espelta, ser mais ou menos escuro, ter no miolo vários tipos de sementes, ter formato de carcaça ou de pão de forma, ter uma consistência porosa ou compacta, ser coberto com flocos de aveia, pevides, sementes de girasol, enfim, as variações são inúmeras. No entanto, o portuga não irá encontrar por aqui nada que se pareça com a broa de milho ou broa de Avintes, pois por estas paragens não é usual usar milho para fazer pão. Vem a propósito referir uma história que se conta sobre a vulgarização do milho na Alemanha. Diz-se que resultou de um equívoco no diálogo com os americanos, durante o período de ajuda ao povo alemão, que se seguiu à II Guerra. Os alemães pediram o fornecimento de cereal ( Korn ), e os americanos entenderam, que lhes estavam a pedir milho ( corn ), tendo fornecido várias toneladas deste cereal. De qualquer forma o milho e a sua farinha, não chegaram verdadeiramente a conquistar a alimentação germânica. Consultando o portal de estatística alemão, verifico que mais de metade da produção actual de milho é destinada à industria das rações, 25% aos biocombustíveis e apenas cerca de 20% é usada no fabrico de farinha alimentar.
Mas o tipo de pão mais tradicional desta região é mesmo o Brezel, com o seu formato característico.


Segundo informações que retirei da internet, os ingredientes do Brezel tradicional são farinha de trigo, malte, levedura, sal e água. A camada exterior do Brezel é estaladiça e salgada e no seu interior apresenta-se um miolo macio. Antes de ir ao forno a massa é mergulhada por instantes numa solução de soda, que lhe confere um sabor característico e a sua cor castanha. Não tenho conhecimento que esta massa tenha equivalente na padaria portuguesa. O Brezel tem muita procura por clientes de todas as idades, quer na sua versão simples, quer em versões alternativas, como seja com cobertura de  sementes, com queijo derretido, ou na versão com manteiga, como se se tratasse de uma sandes. Diga-se de passagem, que é necessária uma boa faca e alguma perícia, para abrir um Brezel ao meio como se fosse uma carcaça e depois untá-lo com manteiga... O Brezel é usado para acompanhar uma refeição simples, ou uma bebida ou, pura e simplesmente, para ir entretendo o estômago até à próxima refeição.

O Brezel é utilizado frequentemente como símbolo de pão, surgindo como peça decorativa em letreiros ou, como neste caso, em puxadores de porta.



Enfim, a variedade é muita e as padarias têm de facto muita clientela. Certa vez disse-me um colega de trabalho: "Quando vou de férias ao estrangeiro, do que mais sinto a falta é do nosso pão ao pequeno almoço."

No entanto, nos restaurantes, não é usual trazerem uma cesta com pão para acompanhar a refeição. Por isso, o portuga que gosta de molhar o pãozinho no molho, deverá pedir expressamente umas fatias de pão ao empregado. A boa notícia para os meus compatriotas, é que as tais fatiazinhas de pão, não são cobradas. Por isso, é favor não esquecer a gorjeta !

sábado, 1 de junho de 2013

O Correio e as Campaínhas


Há uns anos atrás correspondia-me com um amigo português, que se encontrava a morar na Alemanha. Enviava-lhe as cartas para a sua morada na rua Konrad Adenauer (em quase todas as cidades há uma rua dedicada a este importante estadista alemão), escrevendo no envelope por baixo do nome do destinatário: Konrad Adenauer Strasse, 9 , seguido do código postal e da respectiva cidade. Aquela morada causava-me alguma estranheza. Estando ele a tirar um curso na Alemanha, sem um rendimento mensal regular e fazendo uma vida poupada e sem luxos, como era possivel estar a morar numa vivenda? Pois se a morada tinha apenas número de porta, é porque certamente se tratava de uma vivenda ... pensava eu.

Mas o que eu na altura não sabia, é que na Alemanha não é usual indicar nas moradas o andar e o lado esquerdo ou direito de um apartamento. As várias caixas de correio de um prédio são identificadas através do nome de família do ou dos moradores, que é colocado num pequeno letreiro. Deste modo, o carteiro ao fazer a distribuição da correspondência, tem de procurar a caixa com o apelido do destinatário para lá enfiar a respectiva carta. Por isso, não convém identificar o destinatário apenas com o primeiro nome ou com uma alcunha, pois o carteiro ficará sem saber em qual das caixas deverá entregar a correspondência.


O mesmo princípio das caixas de correio é utilizado nas campainhas de porta. Se formos fazer uma visita ao sr. Maier, ao chegar ao prédio, teremos de procurar onde está a campaínha com o seu apelido. E, se for a nossa primeira visita a casa do sr. Maier, ele terá de nos dizer através do intercomunicador ou gritar-nos através da escada, qual é o seu andar.   

No caso das campaínhas, é frequente os dísticos serem iluminados para permitir a sua leitura à noite. Caso o apartamento seja habitado por um casal, em que cada um deles conserva o seu apelido de solteiro, é habitual o dístico indicar os dois apelidos separados por uma barra, como no caso da sra. Koller e do sr. Bachmeier:




 O dístico seguinte parece contar-nos uma história... 


Actualmente a sra. Güngör vive aqui sózinha. Em tempos foi casada com o sr. Thanner, tendo adoptado na altura o apelido do marido. Agora, que se encontra divorciada, voltou a usar o seu nome de solteira. E, como precaução, acrescenta por baixo em letra miúda, o seu anterior apelido, para o caso de lhe ser endereçada alguma carta ainda com o seu nome de casada. Em letra pequena, claro, pois foram tempos que agora prefere esquecer...

Quando nos mudamos para um novo apartamento, deveremos ter o cuidado de, com brevidade, afixar o nosso nome na caixa de correio e também na campaínha.  Senão deixamos de receber a nossa correspondência e, o homem que vem entregar a nova mobília, não saberá para onde tocar. E, quando um dia deixarmos o apartamento, teremos de retirar os dísticos com o nosso nome.

Um português, habituado a um sistema bem diferente, pergunta-se porque razão será que identificam caixas de correio e campaínhas com o nome de família? Uma das vantagens, segundo me disseram, é que desta forma a correspondência não fica esquecida na caixa de correio se o destinatário entretanto tiver mudado de morada. Bem, poderá ser um argumento, mas não me parece que constitua uma verdadeira vantagem face ao sistema a que estamos acostumados. Pensando bem, o que encontro de vantajoso neste sistema, é que nos podemos dirigir ao nosso vizinho e tratá-lo pelo nome, evitando aquela insuportável fórmula de : "Ó vizinho,..." .