domingo, 30 de março de 2014

O Cinema

Tanto nas  salas de cinema como na televisão a generalidade dos filmes estrangeiros é apresentada em versão dobrada em alemão. Ocasionalmente são projectadas as versões originais com legendas, para os cinéfilos mais puristas.  Há tempos fui ao cinema ver o filme “Comboio Nocturno para Lisboa”, que estreou em 2013, baseado no livro de grande sucesso com o mesmo nome, de Pascal Mercier. 


Foto: Comboio Nocturno para Lisboa
O personagem principal, um professor de grego clássico, é interpretado por Jeremy Irons e o elenco conta com a participação de alguns actores portugueses. Estando há vários meses longe da minha cidade, foi um enorme prazer ver no ecrã alguns recortes de Lisboa, onde decorre o essencial da história. E foi com grande surpresa que vi aparecerem Nicolau Breyner, Beatriz Batarda e João Lagarto a falarem um alemão perfeito !

Estando habituado a ver os filmes nas suas versões originais com legendas, tenho sempre uma sensação de estranheza ao ver um filme dobrado numa outra língua.


                        
                             All That Jazz                                    E Tudo o Vento Levou

                      
O Padrinho

Um diálogo em francês, por exemplo, tem a sua melodia, entoação e fonética próprias da língua. Ao passar o diálogo para alemão, perde-se qualquer coisa da sua identidade cultural francesa. Ainda que as dobragens sejam muito bem feitas, não conseguem evitar que se note uma descoordenação entre as palavras escutadas e o movimento dos lábios. Existe na Alemanha uma grande infraestrutura para a realização de dobragens, que tem muito trabalho para realizar e ocupa muitos actores.

Era Uma Vez no Oeste
África Minha
           
Uma vez encontrada uma voz adequada para certo actor, procura-se que essa voz acompanhe o actor em próximos filmes. Woody Allen, por exemplo, foi dobrado em alemao pela voz de Wolgang Draeger ao longo de 45 anos em 34 filmes. Mas nem sempre se consegue uma união tao duradoura. No caso do actor John Wayne, foram 15 vozes diferentes que o dobraram em alemão ao longo de uma carreira de 40 anos. Frequentemente é o próprio actor dobrado que dá a sua aprovação final à voz estrangeira que o irá dobrar.  Para além da escolha criteriosa das vozes há um grande cuidado na tradução dos diálogos. Por exemplo a tradução para alemão do filme francês “Bienvenu chez les Sch'tis” (título português “Bem vindo ao Norte”) foi certamente uma tarefa complicada, uma vez que o filme parodia a pronúncia e o vocabulário das gentes da região norte de França. 

Bem Vindo ao Norte
Foi necessário encontrar uma tradução equivalente para as muitas expressões idiomáticas e transferir para alemão as singularidades de pronúncia francesa desta região. Para tentar dar um exemplo em português destas singularidades, imagine-se que em vez de dizerem “frango assado”, as pessoas dessa região diriam “frango achado”, e a tradução teria de transpor para alemão esta particularidade e a graca que lhe está associada. Não é tarefa fácil.

Note-se que o  nome do actor escolhido para fazer a dobragem pode surgir nos cartazes como um chamariz adicional, como acontece na capa do DVD acima (nome destacado no rectângulo amarelo).


Voando sobre um Ninho de Cucos
Annie Hall
                             
Mas devido à generalização das dobragens, o público alemão não conhece a voz original dos actores. Nunca ouviu a voz anasalada de Humphrey Bogart no papel de Rick, nem o tom snob de Roger Moore fazendo de Bond, ou as expressões tresloucadas de Jack Nicholson, nem a voz nervosa de Woody Allen. Quando o espectador alemão emite uma opiniao sobre o trabalho de determinado actor, faz na realidade apenas uma apreciacao parcelar do seu trabalho, pois a voz que escutou foi o resultado do trabalho de um outro actor.

Certo dia anunciaram na rádio , que uma actriz americana comemorava o seu aniversário naquela data. E, para prestar tributo à actriz, passaram um pequeno excerto do diálogo de um filme em que ela entrava, mas o excerto que se ouviu estava dobrado em alemão. Ou seja, a voz que ouvimos através da rádio, nem sequer era a da actriz.  Parecia que me estavam a servir chicória em vez de café ...   

Claro que as dobragens têm também as suas vantagens para determinados públicos. É o caso dos espectadores infantis e daqueles que já vão tendo dificuldade em ler as legendas. Além disso, a dobragem permite apreciar a imagem continuadamente, sem interrupções para ler as legendas, o que também é uma vantagem. Mas a meu ver, é uma pena estar tão  generalizado o seu uso na Alemanha, pois o público alemão fica privado de apreciar integralmente o original.



      

Certos filmes, que foram grandes sucessos num país, tornam-se ícones de uma ou mais gerações. Haverá alguém em Portugal, da minha geração e das gerações adjacentes, que não tenha visto o filme "Música no Coração"? Todos os anos, por altura do Natal, algum canal televisivo irá certamente passar uma vez mais  a história da família Von Trapp. É com algum espanto que tenho vindo a constatar, que este filme é completamente desconhecido dos espectadores alemães
     


Em contrapartida, não há certamente nenhum alemão que não conheça a curta metragem  "Dinner for One".  Trata-se de uma peça de teatro inglesa para 2 actores filmada no início dos anos 60, que retrata uma situação cómica, em que um mordomo se vê todos os anos obrigado a embriagar-se  na data de aniversário da sua patroa. Este filme, que passa sempre na televisão alemã no dia de S.Silvestre , é, diria eu, desconhecido da maioria dos portugueses. Nesta era de globalização, são curiosas estas diferencas.

domingo, 2 de março de 2014

Trânsito I : A Buzina

Em que situações estamos habituados a apitar ? De uma forma geral, para alertar para uma situação de risco eminente, para assinalar marcha de emergência, e também para chamar à atenção do condutor distraído que adormeceu no semáforo, e para protestar contra o condutor que fez uma manobra perigosa e nos colocou em risco, e para prevenir aquele peão que não nos está a ver e que poderá avançar para a estrada, e também para manifestar a nossa impaciência, quando algum condutor está a empatar o trânsito. Nesta última situação, o som da buzina, ainda que se trate de uma nota só, transporta consigo frases do género "Então, mas este gajo anda ou quê ?!" ou "Tira-me daí essa carroça, ò....". 

Além disso fazemos uso da buzina em situações que não estão propriamente relacionadas com a circulação automóvel, como seja para saudar um amigo que reconhecemos no carro ao lado, ou para comemorarmos uma vitória, ou um casamento, ou para nos manifestarmos contra uma medida governamental injusta, ou ainda para enviar a partir da rua a mensagem “já cheguei” a quem nos espera no interior de casa. Aliás, este hábito poderá ter contribuido para o uso da expressão tão comum entre nós "Quando chegares, apita!" ou "No domingo dá-me uma apitadela."  Enfim, como se vê, são muitas as situações em que o portuga carrega na buzina. Já se sabe que em outras culturas as sensibilidades são diferentes...

Foto:  O local dos acontecimentos
Neste mesmo local, o parque de estacionamento de um supermercado, fiz uso da buzina em duas ocasiões distintas, tendo desencadeado, em cada uma delas, reacções completamente diferentes. A entrada no parque é antecedida de uma curva bem apertada. Certo dia , depois de concluir a curva, deparo com um sujeito a empurrar o seu carrinho de compras bem no meio da via. O indivíduo seguia de costas voltadas para mim, pelo que resolvi alertá-lo com um toque de buzina. O homem, depois de ter dado um salto, com o susto que apanhou, virou-se para trás com cara de poucos amigos e lá se chegou para o lado. “Não tem nada que buzinar. Não sabe travar ? Parece que está com pressa. Isto é um parque de estacionamento.” E lá continuou a vociferar a sua indignação enquanto eu fui procurar um lugar vazio para estacionar. Quando saí do carro, ainda o homem gesticulava na minha direcção. Claro que a minha buzinadela soou também como uma censura, do género “Que estás tu, ò Fritz, a passear com as compras no meio da via ?!”  Mas de qualquer forma, não esperaria que alguém considerasse aquele toque ofensivo. Creio que uma situação idêntica a esta num parque de estacionamento lisboeta, não iria desencadear uma reacção tão extremada. ”Bem”,pensei para comigo, “aqui tenho de pensar duas vezes antes de buzinar.”

Duas semanas mais tarde, neste mesmo local, preparava-me para estacionar num espaço do lado direito, quando me apercebo que um carro do lado esquerdo inicia uma marcha atrás para sair do estacionamento. Coloquei a mão sobre a buzina, mas contive o movimento. Talvez ele me tenha visto pelo espelho retrovisor... Mas o carro continuou a recuar. Carreguei então com força e prolongadamente na buzina. O carro estacou repentinamente a dois palmos de distancia da minha porta. “Ufa,” pensei, “ afinal a buzina nesta terra ainda serve para alguma coisa”. A condutora pediu desculpa esticando o braço pela fresta da janela. Prossegui com a manobra e estacionei o carro. Procurei na mochila a lista das compras e saí. Ao fechar a porta verifico admirado, que a condutora ficara com o seu carro parado atrás do meu. Com a janela direita aberta, olhou na minha direcção, levantou uma vez mais a mão e disse sorridente: “Muito obrigada por ter buzinado. Eu não tinha mesmo visto o seu carro e ía provocando um acidente!” Correspondi ao seu agradecimento e acenei também, “Felizmente não aconteceu nada!”. A senhora lá arrancou finalmente e eu dirigi-me ao supermercado, divertido com esta atitude, pois nunca me tinham agradecido tão efusivamente uma buzinadela.

E assim, no espaço de 2 semanas e no mesmo local, aprendi a fazer um melhor uso da buzina em terras alemãs.