domingo, 2 de março de 2014

Trânsito I : A Buzina

Em que situações estamos habituados a apitar ? De uma forma geral, para alertar para uma situação de risco eminente, para assinalar marcha de emergência, e também para chamar à atenção do condutor distraído que adormeceu no semáforo, e para protestar contra o condutor que fez uma manobra perigosa e nos colocou em risco, e para prevenir aquele peão que não nos está a ver e que poderá avançar para a estrada, e também para manifestar a nossa impaciência, quando algum condutor está a empatar o trânsito. Nesta última situação, o som da buzina, ainda que se trate de uma nota só, transporta consigo frases do género "Então, mas este gajo anda ou quê ?!" ou "Tira-me daí essa carroça, ò....". 

Além disso fazemos uso da buzina em situações que não estão propriamente relacionadas com a circulação automóvel, como seja para saudar um amigo que reconhecemos no carro ao lado, ou para comemorarmos uma vitória, ou um casamento, ou para nos manifestarmos contra uma medida governamental injusta, ou ainda para enviar a partir da rua a mensagem “já cheguei” a quem nos espera no interior de casa. Aliás, este hábito poderá ter contribuido para o uso da expressão tão comum entre nós "Quando chegares, apita!" ou "No domingo dá-me uma apitadela."  Enfim, como se vê, são muitas as situações em que o portuga carrega na buzina. Já se sabe que em outras culturas as sensibilidades são diferentes...

Foto:  O local dos acontecimentos
Neste mesmo local, o parque de estacionamento de um supermercado, fiz uso da buzina em duas ocasiões distintas, tendo desencadeado, em cada uma delas, reacções completamente diferentes. A entrada no parque é antecedida de uma curva bem apertada. Certo dia , depois de concluir a curva, deparo com um sujeito a empurrar o seu carrinho de compras bem no meio da via. O indivíduo seguia de costas voltadas para mim, pelo que resolvi alertá-lo com um toque de buzina. O homem, depois de ter dado um salto, com o susto que apanhou, virou-se para trás com cara de poucos amigos e lá se chegou para o lado. “Não tem nada que buzinar. Não sabe travar ? Parece que está com pressa. Isto é um parque de estacionamento.” E lá continuou a vociferar a sua indignação enquanto eu fui procurar um lugar vazio para estacionar. Quando saí do carro, ainda o homem gesticulava na minha direcção. Claro que a minha buzinadela soou também como uma censura, do género “Que estás tu, ò Fritz, a passear com as compras no meio da via ?!”  Mas de qualquer forma, não esperaria que alguém considerasse aquele toque ofensivo. Creio que uma situação idêntica a esta num parque de estacionamento lisboeta, não iria desencadear uma reacção tão extremada. ”Bem”,pensei para comigo, “aqui tenho de pensar duas vezes antes de buzinar.”

Duas semanas mais tarde, neste mesmo local, preparava-me para estacionar num espaço do lado direito, quando me apercebo que um carro do lado esquerdo inicia uma marcha atrás para sair do estacionamento. Coloquei a mão sobre a buzina, mas contive o movimento. Talvez ele me tenha visto pelo espelho retrovisor... Mas o carro continuou a recuar. Carreguei então com força e prolongadamente na buzina. O carro estacou repentinamente a dois palmos de distancia da minha porta. “Ufa,” pensei, “ afinal a buzina nesta terra ainda serve para alguma coisa”. A condutora pediu desculpa esticando o braço pela fresta da janela. Prossegui com a manobra e estacionei o carro. Procurei na mochila a lista das compras e saí. Ao fechar a porta verifico admirado, que a condutora ficara com o seu carro parado atrás do meu. Com a janela direita aberta, olhou na minha direcção, levantou uma vez mais a mão e disse sorridente: “Muito obrigada por ter buzinado. Eu não tinha mesmo visto o seu carro e ía provocando um acidente!” Correspondi ao seu agradecimento e acenei também, “Felizmente não aconteceu nada!”. A senhora lá arrancou finalmente e eu dirigi-me ao supermercado, divertido com esta atitude, pois nunca me tinham agradecido tão efusivamente uma buzinadela.

E assim, no espaço de 2 semanas e no mesmo local, aprendi a fazer um melhor uso da buzina em terras alemãs.

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