domingo, 29 de junho de 2014

O Rigor

Ir a um restaurante italiano nos meus tempos de juventude significava ir comer uma pizza. Umas vezes com fiambre, outras com atum, cogumelos ou outros ingredientes, mas a opção por pizza era nessa altura uma certeza. Com o passar dos anos os paladares foram-se alterando e, até ao dia de ontem, posso dizer que há bem mais de 1 ano que não comia uma pizza. Mas ontem, ao sentar-me no “Vicenzo”, apeteceu-me matar saudades dessa especialidade italiana. Pelo sim pelo não, perguntei à empregada: “ De que tamanho são as vossas pizzas?” E a resposta veio rápida e precisa: “Têm 29cm de diâmetro.” Eu esperaria que a empregada me indicasse com um gesto das mãos a dimensão aproximada, ou me mostrasse um prato de pizza. Mas em vez disso, recebi uma resposta precisa em centímetros, que, apesar do rigor, não me dava bem a noção de tamanho que eu necessitava. Bem, mas posso confirmar que, cada um dos centímetros quadrados da pizza estava verdadeiramente delicioso! Depois da refeição, num outro restaurante ali por perto, reparei que a ementa afixada à entrada até indicava o diâmetro das pizzas:

Foto: Dois diâmetros à escolha !

- Também nos cabeleireiros se costuma manifestar o rigor nas distâncias, mas aqui, em milímetros.  “Como quer hoje o seu corte de cabelo?” perguntam-me no cabeleireiro habitual. “Hoje queria um corte curtinho.”  “Muito bem”, responde-me a funcionária, “e com quantos milímetros?”

- No outro dia , à entrada do supermercado passei por este cartaz que anunciava peixe fresquinho. Repare-se que, em letra miúda, é indicado o nome do peixe em latim, o que é um pormenor curioso.
Foto: Sparus Aurata de aquacultura
ecológica a 1,69€ / 100g
Mas se quisermos levar uma Sparus Aurata para a próxima refeição, é melhor esquecermos a designação científica e pedirmos ao peixeiro que nos dê uma dourada. Note-se ainda que o preço anunciado é por 100g; uma técnica de vendas muito usada em artigos vendidos a peso. O portuga, habituado a ver preços por quilo, deverá por isso estar atento !

- Na rádio é habitual anunciarem diáriamente as temperaturas que se farão sentir durante o dia e também durante a noite.  Em vez de enumerarem as temperaturas esperadas em algumas cidades, optam por indicar o intervalo de temperaturas esperado no estado da Baviera. A mensagem poderá soar assim: “Para o dia de hoje espera-se que as temperaturas subam a valores entre 19 e 24 graus. Durante a noite as temperaturas deverão descer a valores entre 13 e 9 graus.” “Mas então”, perguntará quem estiver a ler estas linhas, “onde está aqui o rigor, se apenas fornecem um intervalo de temperaturas em vez de indicarem um valor certo?” Pois, é verdade, mas repare-se que, ao anunciarem a subida diurna das temperaturas é indicado primeiro o valor inferior do intervalo e depois o valor superior. Mas quando se referem à descida nocturna das temperaturas, é indicado primeiro o valor superior do intervalo (13ºC) e depois o valor inferior (9ºC). Este é um pormenorzinho, que se pode verificar diariamente em qualquer posto emissor de rádio. É, de certa forma, um sinal do rigor que é colocado na formação dos locutores.

- A própria língua alemã estimula em vários casos o uso do rigor e da clareza. Ocorrem-me dois exemplos. Aquilo a que o portuga costuma chamar “água com gás” é usualmente designado em alemão como “água com dióxido de carbono” (Wasser mit Kohlensäure). Deste modo, todos ficam a saber de que gás se trata. No futebol, uma grande penalidade, também conhecida entre nós como penalti, é designada em alemão como “onze metros” (Elfmeter). E pronto, todos ficam informados sobre a distância entre a marca de penalidade e a linha de golo.

- Quando decorrem obras nas ruas, que obrigam ao corte do alcatrão, surge a seguinte indicação para os automobilistas:
Foto:  Fräskante

"Aresta fresada". Este aviso alerta para a presença de uma aresta viva no piso, pelo que os condutores deverão reduzir a velocidade para não danificar a viatura. Note-se que o aviso emprega um adjectivo técnico, sem receio de que os condutores não o entendam.  

- Mais um pequeno pormenor em que se nota que quase nada é deixado ao acaso. Em vários arruamentos da cidade, a ciclovia encontra-se ao lado da faixa para os peões, separada apenas por uma linha pintada no solo, como nesta imagem.
Foto: Paralelipipedos salientes do lado dos peões
A faixa para bicicletas e peões cruza-se aqui com um outro arruamento. Repare-se que os paralelipípedos se encontram ligeiramente salientes do lado dos peões, formando como que um pequeno lancil. Mas do lado da ciclovia, os paralelipípedos estão perfeitamente nivelados de forma a facilitar a passagem das bicicletas. Detalhes ...

- Nos locais onde se vende comida quente pronta a levar pelo cliente, é usual embrulhar os alimentos em papel de alumínio, de forma a conservar o melhor possivel a temperatura. A folha de alumínio apresenta sempre um lado brilhante e um lado baço. Nas várias lojas em que me tenho abastecido, constato que a refeição é sempre embrulhada de forma a que o lado brilhante da folha de alumínio fique para dentro e o lado baço para fora.
Foto: Com o lado reflector voltado para o interior.

Diz-nos a física que, sendo a face brilhante mais reflectora, deverá ficar voltada para o interior de forma a conservar um pouco melhor a temperatura de alimentos aquecidos. (No caso de alimentos arrefecidos deverá ser ao contrário, para evitar a entrada do calor exterior). Pelo menos em teoria, pois na prática, é muito difícil de quantificar a diferença entre embrulhar com a face brilhante para o interior ou para o exterior. Mas esta forma sempre igual de embrulhar os alimentos é bem um sinal, de que a informação dada aos funcionários não é deixada ao acaso.

- Para a iluminação pública desta rua foram escolhidas luminárias, que lançam a luz num ângulo de 180 graus de forma a iluminar bem a zona central da rua, deixando as fachadas das casas na penumbra.
Foto: Iluminar bem a rua deixando as casas na sombra.

Em zonas habitacionais  nota-se que existe um grande cuidado para que a iluminação pública não incida nas fachadas dos prédios e assim não ilumine as habitações de quem quer dormir.

- Há uns anos atrás era costume dizer-se, que os comboios alemães cumpriam o horário com tal rigor, que podiamos confiadamente acertar o relógio pela chegada ou partida de um comboio. Os tempos mudaram entretanto, e tem-se hoje a impressão de que o nível de exigência foi aligeirado em alguns aspectos. A imagem seguinte pretende dar uma nota divertida a esta crónica, mas, talvez possa também ser vista simbolicamente como um indício, de que o rigor alemão já não é bem o que era:
Foto:  Mas afinal, que horas são ?!
Estes exemplos que relatei, ainda que sejam pequenos pormenores, evidenciam que existe uma cultura de rigor. A sociedade alemã tende a ser rigorosa nos mais variados domínios, quer se trate de legislação, de divulgação cultural, de transmissão de informação, de formação de profissionais, de estabelecer regras de segurança e normas de fabrico, ou pura e simplesmente do hábito de ser pontual.  E, a meu ver, nós portugueses, bem podiamos por vezes cultivar um pouco mais o gosto pelo rigor, que nos faz tanta falta na divulgação de conhecimento, na educação, no uso da linguagem, na formação profissional, e por aí fora. É que ainda se encontram demasiados sinais de desleixo, de falta de conhecimento e de brio na nossa sociedade. Como este exemplo que aqui deixo, que não será difícil de encontrar numa rua lisboeta:

Foto:  Terá sido falta de treino a resolver puzzles ?

terça-feira, 10 de junho de 2014

As Águas

Na Alemanha, há uns vinte e tal anos atrás, quando nos sentávamos num café ou restaurante e pediamos uma água, era certo que nos iriam trazer uma água gaseificada.



 O cliente alemão só consumia água com gás, e como tal, nem se colocava a dúvida ao empregado se o cliente desejaria beber uma água diferente. Aliás, em muitos locais nem sequer havia água sem gás engarrafada . Recordo-me de, nessa altura, pedir água sem gás à refeição e de me responderem: “Ah, sem gás não temos. Prefere que lhe traga um copo com água da torneira?”  Se falassemos sobre esta preferência no nosso círculo de amigos alemães, alguém iria certamente gracejar: “Hmm, água sem gás?!  Só mesmo para lavar os dentes.”  Este hábito desagrava naturalmente ao portuga, que sempre esteve acostumado às suas águas lusas, que são lisas geralmente (como agora se passou também a designar a água sem gás). E, ainda por cima, a água mais comercializada por esses anos na Alemanha era fortemente gaseificada, uma autêntica água “borbulhante”.
Os tempos mudaram e a influencia exterior contribuiu para o aparecimento de águas engarrafadas sem gás e também com diferentes intensidades de gaseificação. Muitas marcas apresentam agora a sua água em 3 diferentes variantes:
“Still” :  silenciosa, ou seja, sem gás;
“Sanft” / “Medium” :  suave / média, isto é, com gaseificação moderada;
“Classic” :  clássica, o que remete para um passado não muito distante, quando só se comercialisava a tal água "borbulhante".
Hoje em dia, nos cafés ou restaurantes, já se tornou comum perguntarem ao cliente se prefere a sua água com ou sem gás.

Falando ainda sobre águas, um outro costume que poderá surpreender o portuga, é o de o empregado servir a água num copo, como se se tratasse de uma imperial.



E, nos casos em que a água nos é trazida em garrafa, não é imperativo que o empregado abra a garrafa à nossa frente. Por vezes trazem-nos no tabuleiro a garrafa de água já aberta. Como sabemos, em Portugal, se o empregado não abrir a garrafa de água à frente do cliente, arrisca-se a ouvir uma reclamação e a ter de ir buscar uma garrafa por abrir.

E, quem vai aos supermercados comprar água engarrafada, não irá encontrar os garrafões de 5 litros a que o portuga há muitos anos está habituado. Por aqui, o maior volume de água engarrafada que até agora encontrei, foi de ... 2 litros.

Foto:    1,0 litros - 1,5 litros - 2,0 litros

Na minha opinião, bem podiam aumentar o volume de água por embalagem, que os clientes não se sentiriam prejudicados e contribuiriam para reduzir a produção de garrafas de plástico. Mas sem cair nos exageros de algumas marcas de água portuguesas, que têm vindo a aumentar o volume de água por embalagem e já apresentam pesados garrafões de 6 e 7 litros. Por este andar, deverá estar para breve o mega-garrafão de 10 litros, que ... não vai mesmo dar jeito nenhum !