domingo, 29 de junho de 2014

O Rigor

Ir a um restaurante italiano nos meus tempos de juventude significava ir comer uma pizza. Umas vezes com fiambre, outras com atum, cogumelos ou outros ingredientes, mas a opção por pizza era nessa altura uma certeza. Com o passar dos anos os paladares foram-se alterando e, até ao dia de ontem, posso dizer que há bem mais de 1 ano que não comia uma pizza. Mas ontem, ao sentar-me no “Vicenzo”, apeteceu-me matar saudades dessa especialidade italiana. Pelo sim pelo não, perguntei à empregada: “ De que tamanho são as vossas pizzas?” E a resposta veio rápida e precisa: “Têm 29cm de diâmetro.” Eu esperaria que a empregada me indicasse com um gesto das mãos a dimensão aproximada, ou me mostrasse um prato de pizza. Mas em vez disso, recebi uma resposta precisa em centímetros, que, apesar do rigor, não me dava bem a noção de tamanho que eu necessitava. Bem, mas posso confirmar que, cada um dos centímetros quadrados da pizza estava verdadeiramente delicioso! Depois da refeição, num outro restaurante ali por perto, reparei que a ementa afixada à entrada até indicava o diâmetro das pizzas:

Foto: Dois diâmetros à escolha !

- Também nos cabeleireiros se costuma manifestar o rigor nas distâncias, mas aqui, em milímetros.  “Como quer hoje o seu corte de cabelo?” perguntam-me no cabeleireiro habitual. “Hoje queria um corte curtinho.”  “Muito bem”, responde-me a funcionária, “e com quantos milímetros?”

- No outro dia , à entrada do supermercado passei por este cartaz que anunciava peixe fresquinho. Repare-se que, em letra miúda, é indicado o nome do peixe em latim, o que é um pormenor curioso.
Foto: Sparus Aurata de aquacultura
ecológica a 1,69€ / 100g
Mas se quisermos levar uma Sparus Aurata para a próxima refeição, é melhor esquecermos a designação científica e pedirmos ao peixeiro que nos dê uma dourada. Note-se ainda que o preço anunciado é por 100g; uma técnica de vendas muito usada em artigos vendidos a peso. O portuga, habituado a ver preços por quilo, deverá por isso estar atento !

- Na rádio é habitual anunciarem diáriamente as temperaturas que se farão sentir durante o dia e também durante a noite.  Em vez de enumerarem as temperaturas esperadas em algumas cidades, optam por indicar o intervalo de temperaturas esperado no estado da Baviera. A mensagem poderá soar assim: “Para o dia de hoje espera-se que as temperaturas subam a valores entre 19 e 24 graus. Durante a noite as temperaturas deverão descer a valores entre 13 e 9 graus.” “Mas então”, perguntará quem estiver a ler estas linhas, “onde está aqui o rigor, se apenas fornecem um intervalo de temperaturas em vez de indicarem um valor certo?” Pois, é verdade, mas repare-se que, ao anunciarem a subida diurna das temperaturas é indicado primeiro o valor inferior do intervalo e depois o valor superior. Mas quando se referem à descida nocturna das temperaturas, é indicado primeiro o valor superior do intervalo (13ºC) e depois o valor inferior (9ºC). Este é um pormenorzinho, que se pode verificar diariamente em qualquer posto emissor de rádio. É, de certa forma, um sinal do rigor que é colocado na formação dos locutores.

- A própria língua alemã estimula em vários casos o uso do rigor e da clareza. Ocorrem-me dois exemplos. Aquilo a que o portuga costuma chamar “água com gás” é usualmente designado em alemão como “água com dióxido de carbono” (Wasser mit Kohlensäure). Deste modo, todos ficam a saber de que gás se trata. No futebol, uma grande penalidade, também conhecida entre nós como penalti, é designada em alemão como “onze metros” (Elfmeter). E pronto, todos ficam informados sobre a distância entre a marca de penalidade e a linha de golo.

- Quando decorrem obras nas ruas, que obrigam ao corte do alcatrão, surge a seguinte indicação para os automobilistas:
Foto:  Fräskante

"Aresta fresada". Este aviso alerta para a presença de uma aresta viva no piso, pelo que os condutores deverão reduzir a velocidade para não danificar a viatura. Note-se que o aviso emprega um adjectivo técnico, sem receio de que os condutores não o entendam.  

- Mais um pequeno pormenor em que se nota que quase nada é deixado ao acaso. Em vários arruamentos da cidade, a ciclovia encontra-se ao lado da faixa para os peões, separada apenas por uma linha pintada no solo, como nesta imagem.
Foto: Paralelipipedos salientes do lado dos peões
A faixa para bicicletas e peões cruza-se aqui com um outro arruamento. Repare-se que os paralelipípedos se encontram ligeiramente salientes do lado dos peões, formando como que um pequeno lancil. Mas do lado da ciclovia, os paralelipípedos estão perfeitamente nivelados de forma a facilitar a passagem das bicicletas. Detalhes ...

- Nos locais onde se vende comida quente pronta a levar pelo cliente, é usual embrulhar os alimentos em papel de alumínio, de forma a conservar o melhor possivel a temperatura. A folha de alumínio apresenta sempre um lado brilhante e um lado baço. Nas várias lojas em que me tenho abastecido, constato que a refeição é sempre embrulhada de forma a que o lado brilhante da folha de alumínio fique para dentro e o lado baço para fora.
Foto: Com o lado reflector voltado para o interior.

Diz-nos a física que, sendo a face brilhante mais reflectora, deverá ficar voltada para o interior de forma a conservar um pouco melhor a temperatura de alimentos aquecidos. (No caso de alimentos arrefecidos deverá ser ao contrário, para evitar a entrada do calor exterior). Pelo menos em teoria, pois na prática, é muito difícil de quantificar a diferença entre embrulhar com a face brilhante para o interior ou para o exterior. Mas esta forma sempre igual de embrulhar os alimentos é bem um sinal, de que a informação dada aos funcionários não é deixada ao acaso.

- Para a iluminação pública desta rua foram escolhidas luminárias, que lançam a luz num ângulo de 180 graus de forma a iluminar bem a zona central da rua, deixando as fachadas das casas na penumbra.
Foto: Iluminar bem a rua deixando as casas na sombra.

Em zonas habitacionais  nota-se que existe um grande cuidado para que a iluminação pública não incida nas fachadas dos prédios e assim não ilumine as habitações de quem quer dormir.

- Há uns anos atrás era costume dizer-se, que os comboios alemães cumpriam o horário com tal rigor, que podiamos confiadamente acertar o relógio pela chegada ou partida de um comboio. Os tempos mudaram entretanto, e tem-se hoje a impressão de que o nível de exigência foi aligeirado em alguns aspectos. A imagem seguinte pretende dar uma nota divertida a esta crónica, mas, talvez possa também ser vista simbolicamente como um indício, de que o rigor alemão já não é bem o que era:
Foto:  Mas afinal, que horas são ?!
Estes exemplos que relatei, ainda que sejam pequenos pormenores, evidenciam que existe uma cultura de rigor. A sociedade alemã tende a ser rigorosa nos mais variados domínios, quer se trate de legislação, de divulgação cultural, de transmissão de informação, de formação de profissionais, de estabelecer regras de segurança e normas de fabrico, ou pura e simplesmente do hábito de ser pontual.  E, a meu ver, nós portugueses, bem podiamos por vezes cultivar um pouco mais o gosto pelo rigor, que nos faz tanta falta na divulgação de conhecimento, na educação, no uso da linguagem, na formação profissional, e por aí fora. É que ainda se encontram demasiados sinais de desleixo, de falta de conhecimento e de brio na nossa sociedade. Como este exemplo que aqui deixo, que não será difícil de encontrar numa rua lisboeta:

Foto:  Terá sido falta de treino a resolver puzzles ?

terça-feira, 10 de junho de 2014

As Águas

Na Alemanha, há uns vinte e tal anos atrás, quando nos sentávamos num café ou restaurante e pediamos uma água, era certo que nos iriam trazer uma água gaseificada.



 O cliente alemão só consumia água com gás, e como tal, nem se colocava a dúvida ao empregado se o cliente desejaria beber uma água diferente. Aliás, em muitos locais nem sequer havia água sem gás engarrafada . Recordo-me de, nessa altura, pedir água sem gás à refeição e de me responderem: “Ah, sem gás não temos. Prefere que lhe traga um copo com água da torneira?”  Se falassemos sobre esta preferência no nosso círculo de amigos alemães, alguém iria certamente gracejar: “Hmm, água sem gás?!  Só mesmo para lavar os dentes.”  Este hábito desagrava naturalmente ao portuga, que sempre esteve acostumado às suas águas lusas, que são lisas geralmente (como agora se passou também a designar a água sem gás). E, ainda por cima, a água mais comercializada por esses anos na Alemanha era fortemente gaseificada, uma autêntica água “borbulhante”.
Os tempos mudaram e a influencia exterior contribuiu para o aparecimento de águas engarrafadas sem gás e também com diferentes intensidades de gaseificação. Muitas marcas apresentam agora a sua água em 3 diferentes variantes:
“Still” :  silenciosa, ou seja, sem gás;
“Sanft” / “Medium” :  suave / média, isto é, com gaseificação moderada;
“Classic” :  clássica, o que remete para um passado não muito distante, quando só se comercialisava a tal água "borbulhante".
Hoje em dia, nos cafés ou restaurantes, já se tornou comum perguntarem ao cliente se prefere a sua água com ou sem gás.

Falando ainda sobre águas, um outro costume que poderá surpreender o portuga, é o de o empregado servir a água num copo, como se se tratasse de uma imperial.



E, nos casos em que a água nos é trazida em garrafa, não é imperativo que o empregado abra a garrafa à nossa frente. Por vezes trazem-nos no tabuleiro a garrafa de água já aberta. Como sabemos, em Portugal, se o empregado não abrir a garrafa de água à frente do cliente, arrisca-se a ouvir uma reclamação e a ter de ir buscar uma garrafa por abrir.

E, quem vai aos supermercados comprar água engarrafada, não irá encontrar os garrafões de 5 litros a que o portuga há muitos anos está habituado. Por aqui, o maior volume de água engarrafada que até agora encontrei, foi de ... 2 litros.

Foto:    1,0 litros - 1,5 litros - 2,0 litros

Na minha opinião, bem podiam aumentar o volume de água por embalagem, que os clientes não se sentiriam prejudicados e contribuiriam para reduzir a produção de garrafas de plástico. Mas sem cair nos exageros de algumas marcas de água portuguesas, que têm vindo a aumentar o volume de água por embalagem e já apresentam pesados garrafões de 6 e 7 litros. Por este andar, deverá estar para breve o mega-garrafão de 10 litros, que ... não vai mesmo dar jeito nenhum !

segunda-feira, 19 de maio de 2014

As Proibições

O apurado espírito preventivo alemão (ver crónica “A Prevenção), leva a que sejam estabelecidas várias proibições, sendo por vezes algumas delas, surpreendentes para o portuga.

“VERBOTEN” é uma palavra que o forasteiro deverá conhecer para sua própria segurança, pois indica que algo é proibido.  Alí é proibido nadar no rio, acolá é proibido pescar, nas paredes daquele edifício é proibido afixar cartazes e aqui, é proibido estacionar a bicicleta:



Estas são certamente proibições comuns, em muitas sociedades europeias. 

O que já não parece vulgar aos olhos de um portuga, é que neste parque  seja proibido entrar no lugar de estacionamento em marcha atrás:

                                 

Aliás, é raro encontrar veículos estacionados de marcha atrás em parques de estacionamento.

A esmagadora maioria dos condutores entra no lugar de estacionamento de frente. Mas porque razão é que evitam entrar de marcha atrás? Segundo me explicaram, é para evitar que o muro ou parede, que se encontra por trás do espaço de estacionamento fique manchado devido aos gases de escape. 

De forma geral, os condutores alemães, mesmo quando confrontados com as contrariedades do transito e as eventuais asneiras de outros condutores, têm bem presente, que é proibido exibir o dedo médio espetado a um outro condutor. Este ou outro gesto ofensivo, tal como bater com o indicador na testa ou até deitar a língua de fora, são consideradas ofensas intencionais da honra de um cidadão e puníveis com coima ou até, em casos extremos, com privação de liberdade (Strafgesetzbuch (StGB  § 185) ).* As decisões judiciais sobre ofensas deste tipo são fortemente dependentes de uma série de circunstâncias e do próprio juiz, mas não será de estranhar, que o ofensor se veja obrigado a pagar uma multa entre 600 a 1200 € por um dedo médio espetado. Por isso, quem sentir subitamente a necessidade irreprimivel de exteriorizar um gesto agressivo, será melhor optar pela careta com a língua de fora, que sempre deverá sair mais barato...

Aqui temos um outro sinal de proibição pouco vulgar:


neste lago é proibido alimentar os patos e outras aves. Esta proibição é devidamente explicada num painel junto à sinalização: “Alimentar estes animais vai enfraquecer o seu comportamento natural e criar-lhes dependência. Além disso irá contribuir para o aparecimento de espécies indesejadas, como ratazanas, martas, corvos. Os dejectos destes animais e o alimento excedente irão afectar a actual qualidade da água, que foi obtida com assinalavel esforço. Por isso não alimente os animais.” A justificação é clara e recorda-me que, evitar a criação de dependências, é um princípio muito válido, e que tem aplicação em muitas áreas do relacionamento humano...

Este outro sinal de proibição, que tanto jeito fazia em muitas cidades portuguesas, transmite uma indicação que não deixa margem para dúvidas (ver crónica “Os Cães”).



E, se for respeitado, dará um forte contributo para o asseio da via pública e ... da sola dos nossos sapatos.


Na maioria das cidades alemãs existem ciclovias que por vezes ladeiam as ruas e avenidas. É proibido aos ciclistas circularem no sentido oposto ao dos automóveis, que circulam ao lado da ciclovia. Este cartaz recorda esta regra aos ciclistas, dizendo:  “...se consegues ler este cartaz...estás a circular no sentido errado."


Mas foi à entrada de uma casa de banho pública, situada num jardim de Munique, que encontrei há vários anos atrás a mais invulgar das proibições. Uma placa dizia o seguinte:  “A pemanência neste local é autorizada exclusivamente com a finalidade de satisfação da necessidade. Permanências injustificadas para além do tempo considerado razoável para este efeito, ficam sujeitas a penalização por perturbação da ordem pública.” 

Foto de 1987:  Aviso para quem usa o WC.
~

O cidadão alemão é em geral cumpridor das regras, mas de vez quando lá aparece um infractor :
Foto: "O senhor desculpe, mas...aqui não."


Nos meus tempos de escola, conheci um professor alemão, que viveu em Portugal durante uns anos, e que dizia com graça: “Em Portugal, tudo aquilo que não é expressamente proibido, é autorizado. Na Alemanha, tudo aquilo que não é expressamente autorizado, é proibido.”  É uma síntese engraçada, e que tem algum fundamento. Mas não se fique com a ideia de que existe uma obsessão proibidora na sociedade alemã. E para fazer o contraponto, aqui vos deixo dois exemplos de actividades que são proibidas em Portugal e que são toleradas na Alemanha.

- Na Alemanha é permitida a publicidade a tabacos nas ruas, coisa que não se vê em Portugal já há alguns anos:





- Nas feiras populares portuguesas passou a ser proibido o tiro ao alvo com uma pressão de ar. Os feirantes, coitados,  lá tiveram de se adaptar às regras impostas pela ASAE e oferecem agora o arremesso de bolas para derrubar umas latas. No entanto, na Alemanha, país onde vigoram tantas regras de segurança e princípios preventivos, é vulgar encontrar "barracas de tirinhos" nas festas populares.

Quem não se lembra da tradicional pergunta: “Ó freguês, vai um tirinho ?”
  
“Vai sim senhora!  Até vão dois ou mais !”





* fonte:   ARAG (seguradora)


domingo, 30 de março de 2014

O Cinema

Tanto nas  salas de cinema como na televisão a generalidade dos filmes estrangeiros é apresentada em versão dobrada em alemão. Ocasionalmente são projectadas as versões originais com legendas, para os cinéfilos mais puristas.  Há tempos fui ao cinema ver o filme “Comboio Nocturno para Lisboa”, que estreou em 2013, baseado no livro de grande sucesso com o mesmo nome, de Pascal Mercier. 


Foto: Comboio Nocturno para Lisboa
O personagem principal, um professor de grego clássico, é interpretado por Jeremy Irons e o elenco conta com a participação de alguns actores portugueses. Estando há vários meses longe da minha cidade, foi um enorme prazer ver no ecrã alguns recortes de Lisboa, onde decorre o essencial da história. E foi com grande surpresa que vi aparecerem Nicolau Breyner, Beatriz Batarda e João Lagarto a falarem um alemão perfeito !

Estando habituado a ver os filmes nas suas versões originais com legendas, tenho sempre uma sensação de estranheza ao ver um filme dobrado numa outra língua.


                        
                             All That Jazz                                    E Tudo o Vento Levou

                      
O Padrinho

Um diálogo em francês, por exemplo, tem a sua melodia, entoação e fonética próprias da língua. Ao passar o diálogo para alemão, perde-se qualquer coisa da sua identidade cultural francesa. Ainda que as dobragens sejam muito bem feitas, não conseguem evitar que se note uma descoordenação entre as palavras escutadas e o movimento dos lábios. Existe na Alemanha uma grande infraestrutura para a realização de dobragens, que tem muito trabalho para realizar e ocupa muitos actores.

Era Uma Vez no Oeste
África Minha
           
Uma vez encontrada uma voz adequada para certo actor, procura-se que essa voz acompanhe o actor em próximos filmes. Woody Allen, por exemplo, foi dobrado em alemao pela voz de Wolgang Draeger ao longo de 45 anos em 34 filmes. Mas nem sempre se consegue uma união tao duradoura. No caso do actor John Wayne, foram 15 vozes diferentes que o dobraram em alemão ao longo de uma carreira de 40 anos. Frequentemente é o próprio actor dobrado que dá a sua aprovação final à voz estrangeira que o irá dobrar.  Para além da escolha criteriosa das vozes há um grande cuidado na tradução dos diálogos. Por exemplo a tradução para alemão do filme francês “Bienvenu chez les Sch'tis” (título português “Bem vindo ao Norte”) foi certamente uma tarefa complicada, uma vez que o filme parodia a pronúncia e o vocabulário das gentes da região norte de França. 

Bem Vindo ao Norte
Foi necessário encontrar uma tradução equivalente para as muitas expressões idiomáticas e transferir para alemão as singularidades de pronúncia francesa desta região. Para tentar dar um exemplo em português destas singularidades, imagine-se que em vez de dizerem “frango assado”, as pessoas dessa região diriam “frango achado”, e a tradução teria de transpor para alemão esta particularidade e a graca que lhe está associada. Não é tarefa fácil.

Note-se que o  nome do actor escolhido para fazer a dobragem pode surgir nos cartazes como um chamariz adicional, como acontece na capa do DVD acima (nome destacado no rectângulo amarelo).


Voando sobre um Ninho de Cucos
Annie Hall
                             
Mas devido à generalização das dobragens, o público alemão não conhece a voz original dos actores. Nunca ouviu a voz anasalada de Humphrey Bogart no papel de Rick, nem o tom snob de Roger Moore fazendo de Bond, ou as expressões tresloucadas de Jack Nicholson, nem a voz nervosa de Woody Allen. Quando o espectador alemão emite uma opiniao sobre o trabalho de determinado actor, faz na realidade apenas uma apreciacao parcelar do seu trabalho, pois a voz que escutou foi o resultado do trabalho de um outro actor.

Certo dia anunciaram na rádio , que uma actriz americana comemorava o seu aniversário naquela data. E, para prestar tributo à actriz, passaram um pequeno excerto do diálogo de um filme em que ela entrava, mas o excerto que se ouviu estava dobrado em alemão. Ou seja, a voz que ouvimos através da rádio, nem sequer era a da actriz.  Parecia que me estavam a servir chicória em vez de café ...   

Claro que as dobragens têm também as suas vantagens para determinados públicos. É o caso dos espectadores infantis e daqueles que já vão tendo dificuldade em ler as legendas. Além disso, a dobragem permite apreciar a imagem continuadamente, sem interrupções para ler as legendas, o que também é uma vantagem. Mas a meu ver, é uma pena estar tão  generalizado o seu uso na Alemanha, pois o público alemão fica privado de apreciar integralmente o original.



      

Certos filmes, que foram grandes sucessos num país, tornam-se ícones de uma ou mais gerações. Haverá alguém em Portugal, da minha geração e das gerações adjacentes, que não tenha visto o filme "Música no Coração"? Todos os anos, por altura do Natal, algum canal televisivo irá certamente passar uma vez mais  a história da família Von Trapp. É com algum espanto que tenho vindo a constatar, que este filme é completamente desconhecido dos espectadores alemães
     


Em contrapartida, não há certamente nenhum alemão que não conheça a curta metragem  "Dinner for One".  Trata-se de uma peça de teatro inglesa para 2 actores filmada no início dos anos 60, que retrata uma situação cómica, em que um mordomo se vê todos os anos obrigado a embriagar-se  na data de aniversário da sua patroa. Este filme, que passa sempre na televisão alemã no dia de S.Silvestre , é, diria eu, desconhecido da maioria dos portugueses. Nesta era de globalização, são curiosas estas diferencas.

domingo, 2 de março de 2014

Trânsito I : A Buzina

Em que situações estamos habituados a apitar ? De uma forma geral, para alertar para uma situação de risco eminente, para assinalar marcha de emergência, e também para chamar à atenção do condutor distraído que adormeceu no semáforo, e para protestar contra o condutor que fez uma manobra perigosa e nos colocou em risco, e para prevenir aquele peão que não nos está a ver e que poderá avançar para a estrada, e também para manifestar a nossa impaciência, quando algum condutor está a empatar o trânsito. Nesta última situação, o som da buzina, ainda que se trate de uma nota só, transporta consigo frases do género "Então, mas este gajo anda ou quê ?!" ou "Tira-me daí essa carroça, ò....". 

Além disso fazemos uso da buzina em situações que não estão propriamente relacionadas com a circulação automóvel, como seja para saudar um amigo que reconhecemos no carro ao lado, ou para comemorarmos uma vitória, ou um casamento, ou para nos manifestarmos contra uma medida governamental injusta, ou ainda para enviar a partir da rua a mensagem “já cheguei” a quem nos espera no interior de casa. Aliás, este hábito poderá ter contribuido para o uso da expressão tão comum entre nós "Quando chegares, apita!" ou "No domingo dá-me uma apitadela."  Enfim, como se vê, são muitas as situações em que o portuga carrega na buzina. Já se sabe que em outras culturas as sensibilidades são diferentes...

Foto:  O local dos acontecimentos
Neste mesmo local, o parque de estacionamento de um supermercado, fiz uso da buzina em duas ocasiões distintas, tendo desencadeado, em cada uma delas, reacções completamente diferentes. A entrada no parque é antecedida de uma curva bem apertada. Certo dia , depois de concluir a curva, deparo com um sujeito a empurrar o seu carrinho de compras bem no meio da via. O indivíduo seguia de costas voltadas para mim, pelo que resolvi alertá-lo com um toque de buzina. O homem, depois de ter dado um salto, com o susto que apanhou, virou-se para trás com cara de poucos amigos e lá se chegou para o lado. “Não tem nada que buzinar. Não sabe travar ? Parece que está com pressa. Isto é um parque de estacionamento.” E lá continuou a vociferar a sua indignação enquanto eu fui procurar um lugar vazio para estacionar. Quando saí do carro, ainda o homem gesticulava na minha direcção. Claro que a minha buzinadela soou também como uma censura, do género “Que estás tu, ò Fritz, a passear com as compras no meio da via ?!”  Mas de qualquer forma, não esperaria que alguém considerasse aquele toque ofensivo. Creio que uma situação idêntica a esta num parque de estacionamento lisboeta, não iria desencadear uma reacção tão extremada. ”Bem”,pensei para comigo, “aqui tenho de pensar duas vezes antes de buzinar.”

Duas semanas mais tarde, neste mesmo local, preparava-me para estacionar num espaço do lado direito, quando me apercebo que um carro do lado esquerdo inicia uma marcha atrás para sair do estacionamento. Coloquei a mão sobre a buzina, mas contive o movimento. Talvez ele me tenha visto pelo espelho retrovisor... Mas o carro continuou a recuar. Carreguei então com força e prolongadamente na buzina. O carro estacou repentinamente a dois palmos de distancia da minha porta. “Ufa,” pensei, “ afinal a buzina nesta terra ainda serve para alguma coisa”. A condutora pediu desculpa esticando o braço pela fresta da janela. Prossegui com a manobra e estacionei o carro. Procurei na mochila a lista das compras e saí. Ao fechar a porta verifico admirado, que a condutora ficara com o seu carro parado atrás do meu. Com a janela direita aberta, olhou na minha direcção, levantou uma vez mais a mão e disse sorridente: “Muito obrigada por ter buzinado. Eu não tinha mesmo visto o seu carro e ía provocando um acidente!” Correspondi ao seu agradecimento e acenei também, “Felizmente não aconteceu nada!”. A senhora lá arrancou finalmente e eu dirigi-me ao supermercado, divertido com esta atitude, pois nunca me tinham agradecido tão efusivamente uma buzinadela.

E assim, no espaço de 2 semanas e no mesmo local, aprendi a fazer um melhor uso da buzina em terras alemãs.