Tanto nas salas de cinema como na televisão a
generalidade dos filmes estrangeiros é apresentada em versão dobrada em alemão.
Ocasionalmente são projectadas as versões originais com legendas, para os
cinéfilos mais puristas. Há tempos fui
ao cinema ver o filme “Comboio Nocturno para Lisboa”, que estreou em 2013, baseado
no livro de grande sucesso com o mesmo nome, de Pascal Mercier.
O personagem
principal, um professor de grego clássico, é interpretado por Jeremy Irons e o
elenco conta com a participação de alguns actores portugueses. Estando há vários
meses longe da minha cidade, foi um enorme prazer ver no ecrã alguns recortes de
Lisboa, onde decorre o essencial da história. E foi com grande surpresa que vi aparecerem
Nicolau Breyner, Beatriz Batarda e João Lagarto a falarem um alemão perfeito !
Estando habituado a ver os filmes nas suas versões originais com legendas, tenho sempre uma sensação de estranheza ao ver um filme dobrado numa outra língua.
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| Foto: Comboio Nocturno para Lisboa |
Estando habituado a ver os filmes nas suas versões originais com legendas, tenho sempre uma sensação de estranheza ao ver um filme dobrado numa outra língua.
All That Jazz E Tudo o Vento Levou
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| O Padrinho |
Um diálogo em francês,
por exemplo, tem a sua melodia, entoação e fonética próprias da língua. Ao
passar o diálogo para alemão, perde-se qualquer coisa da sua identidade cultural francesa. Ainda que as
dobragens sejam muito bem feitas, não conseguem evitar que se note uma
descoordenação entre as palavras escutadas e o movimento dos lábios. Existe na
Alemanha uma grande infraestrutura para a realização de dobragens, que tem muito
trabalho para realizar e ocupa muitos actores.
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| Era Uma Vez no Oeste |
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| África Minha |
Uma vez encontrada uma voz adequada para certo actor, procura-se que essa voz acompanhe o actor em próximos filmes. Woody Allen, por exemplo, foi dobrado em alemao pela voz de Wolgang Draeger ao longo de 45 anos em 34 filmes. Mas nem sempre se consegue uma união tao duradoura. No caso do actor John Wayne, foram 15 vozes diferentes que o dobraram em alemão ao longo de uma carreira de 40 anos. Frequentemente é o próprio actor dobrado que dá a sua aprovação final à voz estrangeira que o irá dobrar. Para além da escolha criteriosa das vozes há um grande cuidado na tradução dos diálogos. Por exemplo a tradução para alemão do filme francês “Bienvenu chez les Sch'tis” (título português “Bem vindo ao Norte”) foi certamente uma tarefa complicada, uma vez que o filme parodia a pronúncia e o vocabulário das gentes da região norte de França.
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| Bem Vindo ao Norte |
Foi
necessário encontrar uma tradução equivalente para as muitas expressões
idiomáticas e transferir para alemão as singularidades de pronúncia francesa desta
região. Para tentar dar um exemplo em português destas singularidades, imagine-se
que em vez de dizerem “frango assado”, as pessoas dessa região diriam “frango
achado”, e a tradução teria de transpor para alemão esta particularidade e a graca que lhe está associada. Não é tarefa fácil.
Note-se que o nome do actor escolhido para fazer a dobragem
pode surgir nos cartazes como um chamariz adicional, como acontece na capa
do DVD acima (nome destacado no rectângulo amarelo).
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| Voando sobre um Ninho de Cucos |
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| Annie Hall |
Mas devido à generalização das dobragens, o público alemão não conhece a voz original dos actores. Nunca ouviu a voz anasalada de Humphrey Bogart no papel de Rick, nem o tom snob de Roger Moore fazendo de Bond, ou as expressões tresloucadas de Jack Nicholson, nem a voz nervosa de Woody Allen. Quando o espectador alemão emite uma opiniao sobre o trabalho de determinado actor, faz na realidade apenas uma apreciacao parcelar do seu trabalho, pois a voz que escutou foi o resultado do trabalho de um outro actor.
Certo dia anunciaram na rádio , que uma actriz americana comemorava o seu aniversário naquela data. E, para prestar tributo à actriz, passaram um pequeno excerto do diálogo de um filme em que ela entrava, mas o excerto que se ouviu estava dobrado em alemão. Ou seja, a voz que ouvimos através da rádio, nem sequer era a da actriz. Parecia que me estavam a servir chicória em vez de café ...
Claro que as dobragens têm também as suas vantagens para determinados públicos. É o caso dos espectadores infantis e
daqueles que já vão tendo dificuldade em ler as legendas. Além disso, a dobragem permite apreciar a imagem continuadamente, sem interrupções para ler as legendas, o que também é uma vantagem. Mas a meu ver, é
uma pena estar tão generalizado o seu uso na Alemanha, pois o público alemão fica privado de apreciar integralmente o original.


Certos filmes, que foram grandes sucessos num país, tornam-se ícones de uma ou mais gerações. Haverá alguém em Portugal, da minha geração e das gerações adjacentes, que não tenha visto o filme "Música no Coração"? Todos os anos, por altura do Natal, algum canal televisivo irá certamente passar uma vez mais a história da família Von Trapp. É com algum espanto que tenho vindo a constatar, que este filme é completamente desconhecido dos espectadores alemães.
Em contrapartida, não há certamente nenhum alemão que não conheça a curta metragem "Dinner for One". Trata-se de uma peça de teatro inglesa para 2 actores filmada no início dos anos 60, que retrata uma situação cómica, em que um mordomo se vê todos os anos obrigado a embriagar-se na data de aniversário da sua patroa. Este filme, que passa sempre na televisão alemã no dia de S.Silvestre , é, diria eu, desconhecido da maioria dos portugueses. Nesta era de globalização, são curiosas estas diferencas.


Certos filmes, que foram grandes sucessos num país, tornam-se ícones de uma ou mais gerações. Haverá alguém em Portugal, da minha geração e das gerações adjacentes, que não tenha visto o filme "Música no Coração"? Todos os anos, por altura do Natal, algum canal televisivo irá certamente passar uma vez mais a história da família Von Trapp. É com algum espanto que tenho vindo a constatar, que este filme é completamente desconhecido dos espectadores alemães.
Em contrapartida, não há certamente nenhum alemão que não conheça a curta metragem "Dinner for One". Trata-se de uma peça de teatro inglesa para 2 actores filmada no início dos anos 60, que retrata uma situação cómica, em que um mordomo se vê todos os anos obrigado a embriagar-se na data de aniversário da sua patroa. Este filme, que passa sempre na televisão alemã no dia de S.Silvestre , é, diria eu, desconhecido da maioria dos portugueses. Nesta era de globalização, são curiosas estas diferencas.





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