quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Os Cães


O sol escondeu-se e os candeeiros já estão acesos. Por trás da janela observo a rua que se encontra quase deserta. Um homem avança ao longo do passeio conduzindo o seu cão pela trela. O cão puxa a trela com força, obrigando o seu dono a inclinar-se ligeiramente para trás de forma a refrear a energia do animal. Um cão daquele tamanho deve sentir-se algo oprimido de viver num apartamento e sempre ansioso de ir à rua. O canídeo vai farejando à esquerda e à direita, deixando a sua marca odorífera primeiro na parede do prédio, depois numa árvore e a seguir na roda de um carro, que, por acaso, é do meu vizinho de cima. Um pouco adiante o cão pára junto a um candeeiro público, flete ligeiramente as patas traseiras , colocando-se numa posição característica, que não deixa dúvidas sobre os vestígios que ali irão ficar sobre a calçada. Uma vez satisfeita a necessidade do animal, prossegue o passeio, mas é logo de seguida interrompido por um cão vadio que vem a correr pela rua abaixo. Ao verem-se, os dois cães desatam a ladrar sofregamente, fazendo um tal barulho, que alguns moradores do prédio em frente vêm à janela ver o que se passa. A custo, o dono lá consegue dominar o seu cão e juntos dobram a esquina, desaparecendo assim da minha vista.

Poderíamos ter assistido a uma cena como esta numa qualquer cidade portuguesa, onde não é raro sermos perturbados por cães que ladram insistentemente, ou termos a roda do carro manchada por algum cão cujo dono permitiu que o seu bichano ali se aliviasse, ou sermos perseguidos por um cão a ladrar que não nos deixa prosseguir o nosso jogging ou passeio de bicicleta, ou sermos ameaçados por um que parece querer saltar a vedação para nos atacar, ou ainda, pisarmos inadvertidamente o dejecto de um canídeo que se encontrava bem no meio do caminho. Haverá algum cidadão português, que não tenha ainda passado pela desagradável e fedorenta experiência de ter de limpar a sola do sapato, depois de ter pisado os restos de "uma digestão canina”?

É por tudo isto, que o portuga fica admirado, ao verificar que na Alemanha a relação entre cães e humanos é muito mais disciplinada e ordeira . Dir-se-ia que os cães alemães andaram todos na escola. E os seus donos também parecem ter recebido alguma formação, pois, por aquilo que vou observando, têm mais controlo sobre os seus animais, do que aquilo que estou habituado a ver em Portugal. Por aqui, não se vêem “prendas” de cão espalhadas pelo passeio, nem se ouvem cães a ladrar por tempos infindáveis, nem se vêem cães abandonados a vaguear pela cidade. Nas idas à rua os donos levam o seu animal sempre pela trela. Até mesmo, como neste caso, quando o dono vai de bicicleta:


 
em alternativa, o animal poderá ir na bagageira:

e, também há quem leve o seu “melhor amigo” na sacola, quando vai às compras,
 ou quando viaja de comboio:

E quando os cães se cruzam uns com os outros durante o seu passeio diário, conduzidos pelo respectivo dono, não os vejo envolverem-se em zaragatas barulhentas. E ainda que os portões de algumas vivendas por onde passo ostentem o dístico “Cuidado com o cão”, não fui ainda ameaçado por nenhum cão de guarda, daqueles que enfiam subitamente o focinho por entre as grades e desatam a ladrar de dentes arreganhados.


Este nível generalizado de disciplina, permite que os cães entrem, conduzidos com trela, na maioria dos estabelecimentos comerciais, tais como lojas de vestuário, restaurantes, livrarias, cafés, centros comerciais e tantos outros espaços, sem que se verifiquem distúrbios, ou que o espaço seja conspurcado.


Aqui ficam alguns exemplos:


no pronto-a-vestir:



 






na bijouteria:                                             na livraria:

 


no restaurante:                                       no café:







no centro comercial:



                                          
No entanto, em lojas de venda de alimentos, como supermercados e talhos, a sua entrada não é permitida. Haja tolerância para com os animais, mas nada de exageros. Imagine-se o que se passaria na cabeça de uma cão, ao ver-se rodeado de suculentos e aromáticos bifes e costeletas... Nestes casos, os donos deixam o seu cão preso a algum varão ou poste que se encontre por ali.

 

Alguns supermercados chegam mesmo a dispor de um varão próprio para “estacionamento” de cães.

Foto: Parqueamento para cães



Há ainda alguns cães, com elevado auto domínio, que nem necessitam de ser presos a lado nenhum:



É o caso deste cão de comportamento exemplar, que espera disciplinadamente pela sua dona diante da porta do talho, sem sequer tentar entrar na loja, quando algum outro cliente abre a porta. 

E depois de encontrar o exemplo que se segue, fiquei de facto convencido que os cães alemães frequentam mesmo a escola.  Caso contrário, como conseguiriam eles entender esta sinalética que lhes é destinada ?!?

 



2 comentários:

Anónimo disse...

Devem mesmo ir à escola! Aqui no Luxemburgo as pessoas levam os cães a uma escola para eles ganharem boas maneiras e para os donos aprenderem como devem ensinar os cães! :-)

Anónimo disse...

E ainda acrescento...a maior parte das vezes o problema está nos donos que não sabem educar os cães. ..